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  • domingo, 11 agosto 2019 00:00
'Largou': boa campanha em campo ainda não atraiu o torcedor para o Rei Pelé 'Largou': boa campanha em campo ainda não atraiu o torcedor para o Rei Pelé Ailton Cruz - Gazeta de Alagoas

Torcedor ‘larga’ o CRB: números assustadores, pouca presença no estádio e afastamento do clube

 

 

Em campo, Léo Ceará corresponde mas ao fundo poucos torcedores no Rei Pelé - Foto:Ailton Cruz

 

 

O público de 4.539 torcedores pagando ingresso, registrado na partida contra Oeste, é o maior público do CRB na Série B do Campeonato Brasileiro após o Regatas apresentar oito jogo como mandante. O número é bem superior à média de 2.644 torcedores por jogo que Galo apresenta.

A baixa presença de torcedores nos jogos do CRB nesta temporada chama muito a atenção. Claramente, o torcedor regatiano está afastado do time e a presença insignificante nos jogos é um recado do torcedor que precisa ser interpretado pela direção do clube.

No período dos últimos três anos, a média de público do CRB no Campeonato Brasileiro vem caindo significativamente. Em 2016 foi de 5.813 torcedores por jogo, diminuiu em 2017 para 5.601 e caiu assustadoramente em 2018 para apenas 3.853 torcedores por partida.

No entanto, o recado da torcida ainda não foi compreendido pela direção do CRB. Afastado do clube nos últimos anos, o torcedor do CRB não é ouvido. Uma pesquisa com seus clientes/consumidores/torcedores ajudaria o clube a ter um entendimento, um diagnóstico e obter respostas em relação a este fenômeno.

Se analisarmos os últimos anos do CRB, existe um distanciamento, natural, do clube com o torcedor. A primeira situação a ser observada é óbvia e está calçada na troca de endereço feita pelo clube. Sair de Maceió, o CRB perdeu toda uma identidade construída desde a sua fundação. O Regatas está agora na Barra de São Miguel.

Outro aspecto a ser observado é a implementação de uma maneira profissional de trabalhar. O CRB adota o mecanismo de alguns treinos fechados. Isso também tirou o torcedor do contato diário do clube.

 

Jornalista Alberto Oliveira fala sobre a ausência do torcedor do CRB no Estádio Rei Pelé. Assista

 

 

A rivalidade com o CSA tem um lugar especial neste distanciamento. Nos últimos anos, o CSA cresceu no cenário nacional. O principal rival subiu de divisões em três anos seguidos, conquistou um título nacional, recuperou a hegemonia do futebol alagoano, com dois títulos seguidos e o principal, no primeiro ano disputando a Série B conseguiu o acesso para Série A. O CRB tem 29 participações – incluindo este ano -  na Série B e nunca subiu.

O projeto de sócio-torcedor do CRB não consegue decolar ou ter sequência de um número de associados e a administração do presidente Marcos Barbosa também passa por questionamentos de uma parte da torcida do CRB.

Para fechar estes motivos a forma como o torcedor é tratado para ir a um jogo de futebol também é um agravante. Falta de transporte público, horários absurdos de algumas partidas, falta de conforto no estádio e a violência fazem parte deste cardápio de motivos.

Procurado pela reportagem do site esportealagoano, o CRB não se pronunciou sobre o assunto.

RECADOS PRECISAM SER ESTUDADOS

 

'O CRB perdeu a torcida ganhando', diz Marcos Francisco Santos

 

 

Marcos Francisco Santos é professor e torcedor do CRB. Questionador, Marcos está no grupo que diminuiu o envolvimento com o clube do seu coração.  Para ele não existe apenas um motivo.

 “Tem um monte de motivos, um deles é o descaso com o torcedor no estádio de futebol. A qualidade do tratamento ao torcedor é péssima. A qualidade do futebol praticado também é péssima”, afirma o professor Marcos Francisco Santos.

Ele também explica que de uns anos para cá, os jogadores não se identificam com o torcedor. “Com o tempo, fui percebendo, que pelo menos nos últimos três ou quatro anos, que os jogadores não jogam com a torcida, não se identificam com a torcida, vencem e fazem referências frequentes apenas a direção. É jogador, é treinador que cobra da torcida, fica falando da torcida o tempo todo. Isso para mim é inaceitável. É mais simples dizer que o CRB perdeu a torcida porque está perdendo, mas o CRB não está perdendo nos últimos anos. O CRB perdeu a torcida ganhando” diagnostica Marcos Santos.

 

Walney Padilha, torcedor e conselheiro do CRB: 'jogar para 2000 não condiz com nossa história'

 

Walney Padilha também é apaixonado pelo CRB. Ele tem juntado dados do clube ao longo dos últimos anos. Recentemente, ele foi alçado a condição de conselheiro do clube. Para Walney, o assunto divide muita gente e ele chega a ser taxado contra ‘contra’ por analisar tudo mais friamente. “A maioria acha que o principal ponto foi o acesso do CSA. "Eles subiram na primeira vez que voltaram e a gente há tanto tempo não consegue" é o que 80% vai alegar. Na minha opinião desanima, mas não é motivo pra se afastar do clube. Acho que deveria ser o contrário, prova que com um pouco mais de planejamento (da direção) e a montagem de um bom elenco (a começar pelo comando técnico) a gente também pode e lógico o apoio da torcida é fundamental pra isso. 15% vai alegar que está descontente com a atual direção e os 5% vai na razão, que a gente só apoia na boa” afirma Walney.

Ainda segundo Walney existem fatores para mudar esta situação em curto prazo. “Alguns fatores são fundamentais, os resultados acontecerem (e eles estão acontecendo), preço do ingresso atrelado a bons horários (jogos as 21h30 em qualquer dia da semana, é o pior de todos), desempenho do time (qualquer torcida apoia quando o time sempre busca fazer os resultados, time apático e sem vontade reflete na torcida). Lógico que a gente não vai ter sempre uma média de dez mil pessoas por partida, mas jogar pra 2.000 não condiz com a nossa história”, argumenta Padilha.

Ele também informou que como conselheiro já fez contato com os mais experiente e até reunião com Kenedy Calheiros, eleito presidente do Conselho Deliberativo, já foi realizada. “Vamos discutir várias ações, entre elas justamente o resgate da torcida junto ao clube”, finalizou.

 

DIAGNÓSTICO É O CAMINHO

Em Alagoas, o diagnóstico é inexistente. Todas as discussões são baseadas em observações, em deduções feitas pela imprensa ou pelos torcedores. Não existe um estudo, um diagnóstico, uma pesquisa que busque respostas.

Além da ausência de diagnóstico, o futebol de Alagoas ainda teria uma imensa dificuldade em ler, compreender e atacar os dados que a pesquisa iria apontar.

Em 2013, a Pluri Consultoria realizou um trabalho avaliando a ausência dos torcedores dos estádios. O relatório denominado ’17 motivos para não ir aos estádios’ diagnosticava os principais problemas.

Segundo o estudo, os três principais motivos para o torcedor não ir ao estádio eram: a violência, os altos preços dos ingressos e a baixa qualidade das arenas. Importante lembrar que o cenário do relatório é baseado em 2013.

No relatório ainda foram identificados fatores de alto impacto sobre o público e fatores de médio e baixo impacto.

 

FATORES DE ALTO IMPACTO SOBRE O PÚBLICO

  • Violência
  • Preço dos ingressos
  • Qualidade dos estádios
  • Oferta de pay per view
  • Pouca importância dos jogos
  • Baixa qualidade / tradição do adversário
  • Nível de competitividade do time local
  • Outras opções de entretenimento

 

FATORES DE MÉDIO E BAIXO IMPACTO SOBRE O PÚBLICO 

  • Horário dos jogos
  • Dificuldade na compra de ingressos
  • Oferta de meios de transporte
  • Oferta de estacionamento
  • Oferta de alimentação
  • Oferta de serviços
  • Excesso de jogos na TV

 

 

NUMEROS PREOCUPANTES

Apenas 2.644 torcedores por jogo. Esta é a média de torcedores do CRB na Série B do Campeonato Brasileiro. São oito jogos como mandante. Nestas partidas 21.159 torcedores acompanharam o CRB.

Na Série B, o confronto contra o Oeste, valido pela 13ª rodada apresentou o maior público do CRB na competição: 4.539 torcedores. Em compensação, a estreia do Galo na competição gerou o menor público até agora: 1.842 pessoas assistiram CRB x Londrina.

Os números apresentados pelo CRB até agora assustam, seja especificamente na Série B e até mesmo na temporada. Contabilizando as 19 partidas na temporada, o CRB já levou para os estádios 68.880 torcedores, com média de 3.625 torcedores por jogo.

Na temporada, o CRB tem 20% de ocupação do Estádio Rei Pelé e na Série B, a taxa cai para apenas 15%. O maior público do CRB na temporada foi na final do Alagoano contra o CSA. Foram 11.237 torcedores pagantes no Trapichão. Já o menor público aconteceu na partida entre CRB e CEO com apenas 973 torcedores.

TENDÊNCIA

 

2017: excelente público contra o Inter mas CRB já apresentava viés de queda na Série B - foto: Ailton Cruz

 

 

Apesar dos números serem ruins, refletem uma tendência de queda nos últimos anos. Analisando as últimas três temporadas a queda é vertiginosa. Em 2016, o CRB apresentou a nona melhor média de público na Série B. Em dezenove jogos como mandante, o CRB levou mais de 100 mil pessoas. Foram 110.448 torcedores com média de 5.813 por jogo.

Em 2017 o viés de queda seguiu mas com um impacto menor. O Regatas manteve a 7ª posição no ranking de público da Série B. Como mandante, o CRB foi visto por 10.417 torcedores, com uma média de 5.601 torcedores por partida.

No ano passado, a queda foi absurda. Na mesma competição e com o mesmo número de jogos como mandante (19), o CRB foi o nono colocado na presença de público e levou 30 mil pessoas a menos. Foram 73.204 torcedores, com média de 3.853 por partida.

A análise fria dos números mostra um afastamento do torcedor com o clube. Alguns torcedores do CRB usam a expressão ‘larguei’ e se mantém afastado do Rei Pelé, mesmo mantendo a paixão pela equipe.

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