A reflexão não é sobre o que aconteceu e sim sobre o prejuízo dos clubes

  • sábado, 28 janeiro 2017 00:00

 

 

Sou legalista. Sempre vou defender a legislação, as leis, a justiça. Mas também preciso dizer que existem coisas que são legais, mas não caberiam para o momento em que vivemos. O Tribunal de Justiça de Alagoas acatou um pedido conjunto da CSA e CRB contra a Federação Alagoana de Futebol, e a ação contra a casa do futebol é de R$ 1 mil reais – para que a punição de cinco mandos de campo para o CSA e quatro para o CRB, fosse derrubada. Pedido acatado, os clubes estão liberados para jogarem no Rei Pelé.

Como disse sou legalista, mas após a decisão da justiça alagoana ter sido proferida, mesmo que em caráter liminar, fico com a clara e nítida sensação que nada aconteceu naquele fatídico 05 de maio do ano passado.

Engraçado é que a primeira reação foi de revolta e comoção. Nos dias que sucederam o ocorrido, coletivas de autoridades foram marcadas, a Policia Militar – que diga-se de passagem falhou de maneira grotesca no seu planejamento – chegou a culpar jogadores e os clubes, o governador se pronunciou, o Ministério Público cobrou providências, a própria justiça fez cobranças e até o Conselho de Segurança tratou sobre o assunto. Providências seriam tomadas. Oficialmente foram apresentados cinco gatos pingados, num circo armado onde os presos apareceram com camisas do CSA e a versão que ‘todos os envolvidos’ foram presos e apresentados.

As imagens do dia mostram que pelo menos 60 pessoas – estimativa mínima do que foi visto – entraram em campo, brigaram, provocaram, tentaram roubar profissionais de imprensa, ameaçaram agredir jogadores dos dois times –foram apresentados. Ou eu faltei as aulas de matemática ou a conta não bete. 60 invadiram e cinco presos?

O garoto que apanhou e ficou entre a vida e a morte não é santo. Ele apanhou muito, mas após ter batido muito em um torcedor do CSA que também foi agredido por um grupo de torcedores do CRB. Me custa realmente acreditar que somente eu tenha visto isto, que o que estou descrevendo aqui não tenha sido visto por outras autoridades.

Passados oito meses, os clubes nada fizeram para mudar o que aconteceu – e, que foi muito grave. A preocupação dos clubes seguiu sendo a punição, o prejuízo que eles tiveram.

Vou repetir que sou legalista e que os envolvidos e os provocados estão exercendo o direito ofertado pela legislação, mas a minha indignação é por uma questão de princípio de vida, forma de pensar a maneira como as coisas deveriam acontecer.

Resumindo, os clubes não tem culpa. A PM não teve culpa. A FAF não tem culpa. A culpa é individual e daqueles que brigaram. O resultado é que ninguém teve culpa no que aconteceu. Os que foram presos, os que se envolveram na briga e que possuíam ligações com as organizadas foram recebidos nas suas facções como ‘heróis’.

A certeza é que vivemos em uma sociedade doente, com inversão de valores e com um claro recado que tudo é possível, ‘desde que não me prejudique ou confronte os meus interesses’.

As imagens vistas naquele dia chocaram por terem sido transmitidas ao vivo na frente de quase vinte mil pessoas. Mas para quem mora na periferia, para aqueles que pegam ônibus no Clima Bom, no Benedito Bentes, no Trapiche, as cenas são comuns em dia de jogos envolvendo os dois, envolvendo um ou outro clube. Estas pessoas que presenciam estas cenas sofrem todos os dias de jogos o ‘prejuízo’ do medo, da insegurança, da impotência, da revolta e até mesmo de prejuízos materiais. Mas os clubes, as autoridades, a justiça não tem liminares para isto, não apresentam ações concretas contra isso, não resolvem a questão ouvindo, discutindo, mudando a legislação, rompendo a relação entre clubes e organizadas, prendendo e criando mecanismos que impossibilite delinquentes de frequentarem os estádios.

 

Minha reflexão é saber se vale a pena ir a um estádio e ver – ainda não aconteceu por aqui – uma pessoa morrer, perder a vida pelo fato de torcer por um time diferente daqueles que o sentenciaram. O futebol sempre foi emoção, tesão de ir para o estádio para ver um clássico, mas assim como eu, muitos hoje perderam o prazer por tudo isso que aconteceu e que vem acontecendo. Enquanto isso...nossos clubes se preocupam com os prejuízos que tiveram....

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